
Aqui em São Paulo está frio e tranquilo nesta manhã de domingo, mas a quente Recife recebeu ontem à noite a visita – como bem analisou Fäbio Bianchini neste texto aqui – de um equivalente moderno a Tutancamon ou Moisés. Mas ainda assim a plateia se mostrou “desinteressada e apática”, nas palavras de colegas jornalistas.
Na Folha:
Como de costume, ele cortejou o público com frases pronunciadas em português capenga. O estádio do Arruda veio a baixo quando ele chamou os pernambucanos de “povo arretado”.
Mas faltou, justo ao povo cortejado, um pouco mais de reverência ou interesse.
A plateia, na maior parte do tempo, se dividiu entre a apatia e a dispersão. Dessintonizada do artista, por três vezes se conectou ao espetáculo: durante as execuções de “And I Love Her”, “Live And Let Die” (possivelmente por causa dos efeitos pirotécnicos) e “Hey Jude”.
Na Rolling Stone:
McCartney fez questão de anunciar que outra faixa, “The Night Before”, seria faria sua estreia no Brasil. Mas o que poderia ser uma informação empolgante acabou completamente perdida em um público que parecia mais interessado em conversar e tirar fotos (não do show – mas uns dos outros). Em momentos mais intimistas como na homenagem a John Lennon com “Here Today”, chegava a ser difícil ouvir a música, abafada pela conversa em alto volume no estádio.
ATUALIZAÇÃO: O UOL também adotou o termo “desinteressado”, mas também pegou falas dos fãs.
“Estou esperando há 50 anos para ver Paul McCartney de perto”, disse o padre Rafael Queiroz, 60. “Já tive outras chances de ir a um show dele, mas nunca pude. Agora é minha última chance. Hoje é um dia de festa para mim”, completou ele. E foi festa para uma grande parte das cerca de 40 mil pessoas que esgotaram os ingressos no estádio do Arruda. Outra parcela, especialmente na pista premium, não se importou tanto assim com quem estava no palco.
A plateia do primeiro de dois shows só em Recuife era dividida entre fãs dedicados e curiosos de plantão. O primeiro grupo trouxe pessoas de outros estados (Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Alagoas, Rio ou São Paulo), que dormiram na fila ou que conheciam toda a discografia de Beatles e de Paul McCartney. No segundo, estavam pessoas que preferiam conversar e que mal olhavam para o palco. “A gente vem aqui para ver o show e tem gente que acha que está na casa mãe Joana”, aborreceu-se a estudante Carla Leme, 23, de Olinda.
O Rock em Geral foi mais otimista:
Paul McCartney mostrou a simpatia de sempre, tentando falar em português, embora se mostrasse incomodado com o calor – cerca de 27oC.
(…)
Os shows de Paul no Recife – hoje ele repete a dose – estão movimentando a cidade, a ponto de todos os hotéis estarem lotados. Segundo a produção do show, quase metade dos bilhetes foram vendidos para os estados vizinhos à Pernambuco. Segundo o levantamento, o eixo Rio-São paulo teria colaborado com apenas 4% dos ingressos vendidos.
O G1 foi mais empolgadinho, com direito a informação de orgulho para o Estado.
De volta para o segundo bis, Paul carregava uma bandeira de Pernambuco, elevando o orgulho do público ao nível mais alto.
O Terra também foi positivo, mas é bom frisar que o colega Celso Calheiros, autor do texto, é pernambucano é um paulistano radicado em Pernambuco há bastante tempo.
Paul McCartney iniciou neste sábado, sua turnê no Brasil com o show On the Run. A apresentação cheia de efeitos de luz, som e uma generosa set list tornou ainda mais quente o Estádio do Arruda, que ficou lotado com cerca de 50 mil pessoas. Um público que vibrou, cantou, pulou e dançou com o eterno Beatle.
O que me levou a uma reflexão. Sou suspeito para opinar sobre a suposta apatia do público dita pelos textos da Folha e da RS por dois motivos: sou pernambucano e não vi o show. Iria dizer ainda que sou fã de Paul, mas quero acreditar que todas as pessoas que fizeram esses textos também são e isso não as impediu de colocar suas críticas.
Daí que acho bem possível que houvesse no show um monte de gente que caiu de para-quedas nessa Paulmania repentina que tomou conta do Recife, embora isso seja de praxe em qualquer lugar que o cara se apresente. Mas também há um outro aspecto: até que ponto a opinião de quem assistiu ao show foi influenciada por quem estava ao seu redor ou por uma pré-disposição de notar mais os problemas do que as qualidades do evento?
Não estou dizendo que foi o caso aqui, mas é uma reflexão válida. Por outro lado, críticas sempre ajudam a nos tirar do deslumbramento de fã. É um bom debate esse daí.
Vamos ver como vai ser o segundo show.

De um lado, um quase-novato com oito anos de estrada, e do outro, um veterano de mais de três décadas de carreira porém recém-saído de uma das maiores bandas do indie rock. A noite de 12 de abril no Cine Joia prometia ser pelo menos metade ótima. Thurston Moore, como esperado, fez um show sensacional mas Kurt Vile também não fez feio, e os dois shows juntos criaram um diálogo bem interessante que deixou a noite ainda mais grandiosa.
Tenho pouco a dizer sobre Kurt Vile, ex-The War on Drugs, por assumida falta de conhecimento. Ouvi e gostei de faixas isoladas de seu último disco, “Smoke Ring for My Halo”, mas nem mesmo as memorizei para distingui-las no repertório. O fato é que Kurt e banda, com seu som pesado e seco com vocal melódico, trazem ecos noventistas de Dinosaur Jr. e Screaming Trees, alternando com momentos acústicos meio Dylanianos. Um pós-grunge-folk, por assim dizer, que teve ótimos momentos, mas na minha opinião demorou um pouco para um show de abertura – umas duas músicas a menos não faria mal.
Sem grandes atrasos, por volta das 23h30, Thurston Moore sobe ao palco com seu figurino típico – jeans, camisa branca de manga comprida e cabelo na cara – abre com “Orchard Street”, soando inicialmente melódica como no disco, mas gradativamente o sujeito cede ao seu ponto forte: as camadas de microfonia e arroubos de barulho. O crescendo na canção a torna mais longa e poderosa, e quando termina é como se fosse o show inteiro em uma música só. E só estava começando.
Segundo este setlist, Thurston tocou cinco músicas do disco mais recente, “Demolished Thoughs”; foi o mesmo númnero de faixas do primeiro, “Psychic Hearts”. Brincou com uma cover improvisada de “It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)” e interagiu de forma meio chapada com a plateia, chegando até a pedir para escovar os pelos pubianos de uma menina que lhe jogou uma escova de dentes.
Mas foi uma felicidade constatar que Thurston não economizaria no noise, mesmo que em seu momento solo esteja mais acústico. Seu domínio com a microfonia já era comprovado com guitarras, mas fazer o mesmo com violões – que são mais complicados de domar na mesa de som – foi uma surpresa daquelas. Como esperado, não tocou nada do Sonic Youth nem o “hit” mais recente, “Benediction”, mas nem fizeram falta. Foi um show impecável que acalentou quem ainda está “viúvo” pelo aparente fim de sua parceria com Kim Gordon, Lee Ranaldo e Steve Shelley.
Orchard Street
Never Day
In Silver Rain With a Paper Key
Cindy (Rotten Tanx)
Groovie & Linda
It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)
Blood Never Lies
Circulation
Mina Loy
Pretty Bad
Ono Soul
Bis:
See-Through Playmate
Staring Statues
Bis 2:
Patti Smith Math Scratch

Nos últimos dias eu estive com uns probleminhas de saúde. Especialmente no domingo eu caí no sono com febre. No meu sonho apareceu uma criatura grande e assustadora, com pedaços de corpos e peles diferentes entre si. Apesar do aspecto estranho, ela também inspirava um temor que pode ser interpretado como respeito ao seu tamanho e idade. Minha mente febril deve ter pregado uma peça poética, pois só consegui concluir que a tal criatura era uma versão deformada e bizarra de Bob Dylan.
Você deve ter acompanhado na imprensa, ou aqui mesmo no blog, todo o drama sobre o alto preço dos ingressos da atual turnê brasileira do senhor Zimmerman. E como uma coisa puxa a outra, também debatemos a qualidade e o custo-benefício de seus shows recentes, a bolha dos ingressos das apresentações de rock no país e a eterna postura arredia de Dylan que, como sempre fez, não se pronunciou sobre essa questão.
O sujeito que compôs algumas das maiores canções do século 20 tinha uma inspiração tão iluminada que conseguia disfarçar sua voz limitada e rouca – mais, fez disso uma marca pessoal e até uma vantagem, pois firulas vocais não parecem caber em sua música seca e direta, com letras poderosas. Daí volto para o meu sonho. Essa metáfora, que podemos chamar aqui de “Dylanssauro”, emitia grunhidos pouco articulados e difíceis de entender.
Se antes era fascinante acompanhar as inquietações e contradições entre o Dylan homem e o Dylan mito do rock – fenômeno bem captado pelo filme “Não Estou Lá”, de Todd Haynes – hoje o seu ar de rockstar recluso e cansado não ajuda muito a defendê-lo nessa questão dos ingressos altos, e mais recentemente, na decisão de barrar a presença da imprensa nos shows. Não estou dizendo que ele precise se justificar sobre o que faz ou deixa de fazer na carreira. Por tudo que fez para este mundo, Dylan merece até o direito de ser antipático. Já sobre a acusação de ser mercenário, apesar de carecer de uma investigação mais precisa, é pertinente até que se prove o contrário. Afinal, ainda não é certo se a “culpa” é dele, da Time For Fun, de ambos ou de fatores externos.
Ainda assim, creio que dá para se tirar uma lição. Seja lá quais foram os motivos, o cara que escreveu os versos “All the money you made will never buy back your soul” e “Money doesn’t talk, it swears” realmente comprovou ter renunciado à imagem de porta-voz dos hippies ao jogar os preços das entradas para o quase milhar de real. Assim, se os fãs das classes menos favorecidas perderão Dylan ao vivo, Dylan também os perdeu de vista há algum tempo.
E o gigante disforme do meu sonho sairá do Brasil pisando devagar, dando as costas para esses reles humanos que têm nele admiração e gratidão por sua existência na Terra. Mas tais sentimentos continuarão sendo expostos a uma distância muito, muito longa.

Primeiro foi Floripa. Agora o do Recife saiu de ontem para hoje. Quem conseguir traduzir o que ele fala na “tradução em português” para “21″ ganha um Campeonato Pernambucano vencido pelo Santa Cruz.

Mantendo a tradição recente, Macca fez um vídeo “caseiro” para conclamar o público brasileiro a vê-lo tocar novamente no país.
O que será que ele vai dizer para o vídeo do Recife? Aliás, será que ele vai querer fazer outro vídeo só para a pernambucanidade?

“The Wall” é um grande paradoxo. Na aparência, é um manifesto sobre um grande tema: a sanha da humanidade em promover guerras. Nas entranhas, é também uma forte metáfora intimista de seu criador, Roger Waters. Fez do disco de 1979 um divã aberto sobre seus traumas: a perda do pai, morto na Segunda Guerra quando ainda era bebê; a paranóica percepção política de sua mãe comunista; e a inquietação e o isolamento de ser alçado ao status de ídolo pop.
A atual turnê de Waters para sua obra mais pessoal e grandiloquente – mais um paradoxo – entrega ao público dois extremos: são duas horas de nostalgia pós-hippie que também se mostram um grande momento hedonista, tecnológico e embalado para um público pouco interessado em revoluções. Não é culpa do público apenas. Se no fim dos anos 70 Waters já era o oposto do que atacava em seu libelo – ditador dentro do Pink Floyd, um coroa milionário fora dele – as coisas não mudaram muito em 2012. Isso sem contar as mudanças da música e do mundo nos últimos 30 anos.
O comunismo “acabou”, o Pink Floyd idem, e “The Wall”, o disco, não rende mais dinheiro porque pode ser baixado gratuitamente e guardado em iPhones. Portanto resta a essa nova turnê dar continuidade aos lucros desse bem sucedido produto pop, com todas as devidas atualizações tecnológicas a que tem direito. E nisso, foi muito bem sucedida. O show do dia 3 de abril, no Estádio do Morumbi, é um deleite para olhos e ouvidos, para fãs antigos e neófitos, apesar de não escapar de alguns exageros e obviedades.
Visto da arquibancada, Roger Waters aparece quase microscópico perto daquele muro incompleto no início, em “In The Flesh?”. Mas a impressão não deve ser muito diferente para quem viu da pista, e rapidamente percebe-se o motivo. “The Wall”, o show, foi feito para se ver de longe, porque passados os fogos de artifício, descobrimos que o muro-telão é o real protagonista do espetáculo. Tanto é que até o ego de Waters se rende a ele e se permite ser um pretexto para coreografar imagens pré-gravadas de si mesmo como se fosse “ao vivo”, além das “paredes” de vocais em playback que só enganariam o ouvinte mais desatento de Britney Spears.

Contamos ainda com um bom aparato sonoro com uma espécie de Dolby para estádios, que arrepia com o som ostensivo de helicópteros e aviões zunindo de trás, da esquerda para a direita, ao final de “In The Flesh?”. No mais, o show também é bem fornido de referências, desde as originais que regaram o disco – “1984″, Kafka, Guerra Fria, Berlim, nazismo, rigidez educacional – até as atualizações – os iTudos da Apple, as câmeras de vigilância, Jean Charles e os demais “mortos pelo terrorismo de Estado”. Tudo entrecortado pelas animações clássicas de “The Wall”, o filme de 1982.
O show prossegue de acordo com a ordem original do álbum, e como esperado, as melhores músicas rendem também os pontos altos da apresentação. “Another Brick in the Wall Part 2″ contou com a participação de um coral de crianças de Heliópolis (SP); a confessional “Mother” também alude ao Grande Irmão de George Orwell (“Big Brother Mother is watching you”, diz a projeção); e “Goodbye Blue Sky” traz aviões bombardeando a terra com suásticas, cruzes e outros símbolos dogmáticos.
Por outro lado, não há como negar o óbvio: estamos diante de um dos maiores megalomaníacos do rock, e claro que isso resultaria em alguns pequenos constrangimentos. Na própria “Another Brick in the Wall Part 2″, as crianças encenam uma insossa coreografia de bracinhos em riste contra o bonecão do professor do mal. “Comfortably Numb” começa bem, com o telão mostrando uma espécie de espaço sideral de tijolos, mas que no final abre um céu de arco-íris ao sinal do próprio Waters. Um tremendo “Double Rainbow” de luxo.
Com o muro levantado e depois derrubado, a mensagem dos tijolos caídos não nos diz se Waters pregando contra a tirania e o capitalismo em um show que custa até R$ 900 de ingresso é genial, irônico ou bastante ingênuo. Apoiado pela tecnologia, que sempre foi um dos trunfos do Pink Floyd em relação aos demais dinossauros do pop, e um roteiro rigoroso (previsível, se você preferir assim), Waters conduziu no Brasil mais um grande momento de entretenimento que, para o bem e para o mal, transcendeu o fator música. E nos faz lembrar que podemos ser uma das últimas gerações a vê-lo em carne e osso, mesmo sob uma tonelada de pixels e watts ao seu redor. Nem os mestres escapam da mortalidade, mas o digital já começou o trabalho de perpetuar suas ideias para o futuro.

Printei do site oficial dele pouco depois que começou a circular a notícia da confirmação das datas, locais e preços da terceira vinda de Macca ao Brasil em três anos. Já ajeitaram a grafia, mas francamente, achei que podia ter deixado errado mesmo… ficou meio naif, e ele pode.
Enfim, o serviço dos dois shows:
PAUL MCCARTNEY EM RECIFE
Quando: 21 de abril
Onde: Estádio José do Rego Maciel (Arruda)
Quanto: R$ 600 (pista premium), R$ 260 (gramado), R$ 340 (cadeiras), R$ 180 (arquibancada superior). Há meia entrada
Site para venda de ingressos: www.zetks.com.br
PAUL MCCARTNEY EM FLORIANÓPOLIS
Quando: 25 de abril
Onde: Estádio da Ressacada
Quanto: R$ 760 (gramado premium), R$ 350 (gramado), R$ 380 (cadeiras cobertas gold), R$ 280 (cadeiras descobertas). Há opção de meia-entrada, apenas para venda do público geral.

Grupo RBS traz Paul McCartney a Florianópolis
Show da turnê On The Run está confirmado para o dia 25 de abril no Estádio da Ressacada
O Grupo RBS traz Paul McCartney pela primeira vez a Florianópolis para show da turnê “On The Run”. O contrato foi assinado nesta terça-feira (20), e o show está marcado para o dia 25 de abril, no Estádio da Ressacada.
Resultado de uma parceria entre Grupo RBS, DCSet Promoções e PlanMusic, com apoio do Avaí Futebol Clube, a apresentação do beatle será o maior espetáculo internacional já realizado em Santa Catarina.
Detalhes sobre o show serão divulgados em coletiva a ser realizada na quinta-feira (22), às 15h, em Florianópolis.
Em 2010, o Grupo RBS realizou em Porto Alegre o primeiro show do músico com a turnê Up and Coming na América Latina.
Está mais perto de acontecer do que longe, e Recife também está no aguardo. Mas lembre-se: enquanto as datas e locais não aparecerem no site oficial, não comemore antes do tempo.

Você talvez nem estivesse sabendo, mas o Atari Teenage Riot, aquela banda alemã de barulho sem noção que nós achávamos sensacional na virada dos 2000, adiou o show que rolaria agora em março em São Paulo (Cine Joia). O motivo: a garganta da vocalista Nic Endo pipocou, como informa um dos donos do Cine Joia, Lúcio Ribeiro. Mas já remarcaram: vai para o dia 14 de junho, e no dia seguinte vai rolar um DJ set de Alec Empire em Campinas.
Confesso que até iria pela nostalgia. Mas tenho outros planos para a data.









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